Category Archives: História

Heart aches and Juniper Berries Spirit

Pérfido melaço é o amor de uma mulher.  Uma vida inteira resumida a isto, uma tartine de dor barrada com melaço negro e tirânico… mas pelos menos o chá é quente.

Huck andou durante uns meses na marinha mercante, ele trabalhava num tugboat no canal da mancha. Foram tempos cinzentos e frios e cheios de espaço para pensar e amadurecer.
Triste fado este de andar apaixonado, andar em permanência com um sorriso nos lábios através campos de cacos de vidro e pequenas coisas pontiagudas que fazem dódóis chatos. Huck gabava-se de nunca ter sido gajo que perdia tempo com matters of the heart. Todos sabiam no entanto que tal afirmação era tão falaciosa como o Elvis ter morrido ou seja uma grande mentira.
Eram noites inteiras passadas na casa de banho da pequena embarcação a tentar combater os avanços dos cabelos, que de tanta preocupação romântica, se tornavam brancos. Pintou todas noites daqueles meses o seu cabelo com o negrume de uma tinta que fizesse efeito, nem que temporariamente. Dias passados a olhar para o horizonte, já confuso sem saber se estava virado para Dover ou para Le Havre. Perdidamente apaixonado então.
Mas a dor do amor segundo o Huck, que se considera um sábio das montanhas nestes assuntos mais nebulosamente  metafisico, não deve ser exposta como bigode farfalhudo que levamos sempre a nossa frente, mas sim de forma dissimulada e envergonhada como uma tatuagem marota que fizemos num qualquer canto do corpo e que só é vista por quem a “criou”.

“Sofrer sim, publicamente não.” – Confiou ele um dia ao Tenente Rothschild que lhe respondeu num sotaque tão inglês que era capaz de apostar que o Lord Byron falava assim…
“Strange thing, women. They’ll suck the dear life right out of you but still you’ll go back for more.”
E tragaram mais Gin, e puxaram mais barcos.

Huck

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Just stay down, man!

After a few months he seemed to be coming back.

– Ele ficou preso debaixo de um muro que tombou durante umas obras, ali na baixa.
– Quanto tempo esteve ele soterrado?
– Ninguém sabe, mas devia estar morto. Senão da pancada a simples falta de qualquer alimento durante o que parece ter sido uma longa temporada devia te-lo morto…

At that moment he’s right arm twitched violently.

– Viste aquilo?! Ele mexeu!
– Não é possivel, pá. Andas a imaginar coisas.

Slowly he raised from the hosital bed, the IV tubes snapping away from his arm as he struggled to free himself.

– You stay down, ok? Mister… You stay down!
– F*da-se, chama alguém. Este gajo tá a querer ir embora!

His feet backed away momentarily when he reached the cold ground.
Screw this, he was getting out of here.

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Amêndoas na despedida.

Vou comprar amêndoas torradas ali à Praça da Figueira, alguém quer alguma coisa? – disse  num tom irritado, levando a mão ao jarro de trocos.

“Não te demores, oh glutão! Temos muitos padrões para acabar” – dizia Joca por entre lábios semi-serrados que seguravam meia dúzia de alfinetes. “Vai mas é fazer a barba, oh seu biscoito sem sal.” – sai-me da boca, cortante.  Menezes, pousado num banco, desvia por milésimos de segundos o seu olhar da lista de custos e deixa cair sobre mim, do alto do seu half breasted tweed um olhar de extrema condescendência, nunca precisou de falar muito para dizer o que pensava. Eu não estava para isso, eram 16h15, tinha trabalhado muito e bem, como todos eles alias. Mas naquele dia não estava para isso. Dario que carregava pelo menos uns 8 rolos de tecido, no seu estilo de sempre põe-se em frente à porta aponta para a minha mesa, e diz “Já acabaste de cortar as tuas medidas?”. Foi aí que senti a primeira gota de suor fugir-me do pescoço para o forno que era o meu peito. “Meus queridos amigos, Paletós. ” – com o máximo sarcasmo que pude ajuntar – “Não têm outra pessoa para chatear, seus vadios!? Vou-me embora, deixem-me em paz!!” – outra vez o meu tom foi tudo menos amistoso. Algures em mim uma luz piscou, avisando-me que tinha ultrapassado o limite. Mas este suor… Empurro o Dario, fazendo cair alguns rolos. Sem olhar para trás saio para a rua e ainda ouço o Joca a dizer “Leva a carteira pá… pelo menos!!”
O ar, este, não melhorou. Quente, opressivo, debaixo da minha bata todo eu gritava por uma fonte na qual chapinhar qual Audrey Hepburn no Roman Holiday. Ao chegar à praça, vejo uma algazarra de todo o tamanho. Uns cinco sujeitos estão agarrados a uma corda, alguém grita. Olho para cima e um Steinway and Sons, preto, lindo, baloiça uns 10 metros sobre a rua como se estivesse possesso. Logo por baixo está um velhote. Ele está dobrado a apanhar umas moedas que parecem ter-lhe caído do bolso. E neste momento a corda rompe-se.
Num só movimento faço os 5 passos que nos separam, empurro o velhote fora da zona de impacto e tudo fica negro e no ar quente só ressoa um acorde em dissonância. Um fá sustenido mas pesadíssimo.

…Paletós:”Coitado. Alguèm reconhece-o? Ele nem traz carteira…”

Huck

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Sayonara! #1

“O homem viaja pelo Mundo à procura daquilo de que precisa e volta a casa para encontrá-lo”, George Moore (filósofo inglês)

Os olhos marejados de lágrimas contemplavam a fachada já bastante maltratada do que fora uma das mais conceituadas e concorridas lojas de Lisboa. A velha D. Conceição – que em tempos fora vítima de um dos muitos cortes de pessoal na Sandometal -, ainda ali estava, sentada na esquina, aquecendo-se junto ao púcaro de barro onde ia assando as suas castanhas.

“As mais baratas de Lisboa. Um euro a dúzia”, ladainhava ela, tentando cativar algumas das poucas almas que por ali passavam. Ao aperceber-se da minha presença, disse apenas: “Está fechada menino. Há quatro anos, tiveram de encerrar a loja. A rua, depois da saída dos donos, nunca mais foi a mesma.” O frio obrigava-a a enterrar o rosto num espesso cachecol, impedindo-a de reconhecer o rosto que quatro anos antes fechara a porta da loja pela última vez.

Quatro anos haviam passado. A memória do ultimo ‘cliquediclaque” feito pela chave ao rodar na fechadura da cortina metálica ecoou na minha cabeça e revi-me, ombros caídos e rosto fechado, a dizer adeus ao fruto de muitos anos de investimento e trabalho. Tal como os outros elementos do Collectivo, também eu ia arriscar a sorte lá fora.

– Quero um bilhete de avião, dissera apenas à empregada do balcão da TAP.
– Qual é o destino, perguntou ela.
– Longe.
– Há um voo que sai dentro de duas horas para Tokio com escala em Frankfurt.

Com apenas uma mala de mão, um paletó repescado na loja antes de a fechar, parti para o que ainda não sabia ser uma verdadeira aventura…

…Paletós: “Quero uma almofada, uma manta e para jantar quero o prato de carne, por favor.”

Dario

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Why so serious?

Já sabes? O Heath Ledger faleceu ontem. Dizem que foi overdose mas ele não tinha ar de junkie. Coisa triste pá. Muito triste …

Lenny Garabadian era um jovem que trabalhava, como eu, no set do Today Show – em Nova Iorque – ele era assistente de produção eu trabalhava no wardrobe department. E foi ali no andar de cima do Dean and DeLuca do Rockefeller Center, durante o primeiro break matinal que este escanzelado filho de imigrantes arménios desabafou comigo sobre a demise do mais recente Joker. Heath Ledger tinha falecido há poucas horas no seu apartamento de SoHo.
Permitam-me fazer uma parêntesis para confessar que a homepage  do meu browser desde que deixei Portugal é a pagina web do Correio da Manhã. E foi no CM, ali em letras gordas que vi a noticia, o Joker tinha morrido.  Sente-se sempre alguma tristeza e pesar quando um jovem talento nos deixa, também eu entristeci-me.  Lenny gracejava sobre a fatalidade da vida e o camandro, enquanto eu continuava a ler. Mas ali por baixo da noticia sobre a morte do artista, outra combinação de palavras chamou-me a atenção.

“Comércio Tradicional da Baixa Lisboeta sofre revés – Paletós perdem Loja para a crise”

“Lenny, tenho de ir. Diz ao pessoal que não volto mais.” – Digo ao levantar.
“Como assim não voltas mais?”  – indaga-me ele, surpreso.
“Tenho de ir…” – digo ao sair do café.

…Paletós:”He just up and left. Running. That was SO weird.”

Huck

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A joia e o compartimento secreto.

Antes, eu tinha por habito de ir tomar café às 2 Amazonas mesmo em frente ao antigo terminal do Arco do Cego.  Foram 4/5 anos inteiros, todos os dias. E lá guardava muita coisa. Sim porque Homem que é Homem tem um esconderijo secreto na casa de banho de um café lisboeta.

Ainda lá está o Sr. Tavares, o seu bigode continua a parecer falso. Mas ao olhar pela janela da cozinha não é o Vincenzo que vejo… é um outro rapaz.
Quê feito do Vincenzo, Sr. Tavares? – Pergunto como se não tivesse estado desaparecido por mais de 4 anos.
Ao reconhecer-me o Sr. Tavares bate no peito, deixando cair o seu trapo limpa tudo. Segue-se uma panóplia de abraços, cafés e bagaço “tudo por conta da casa, oh Huck pá!”. Na minha cabeça só penso no raio do miúdo italiano, uma autentica fuinha que não merecia o mínimo de confiança, o único que sabia que na casa de banho das traseiras havia um compartimento secreto onde eu escondia uma série de coisas importantíssimas. Coisas que passo a enumerar. Uma copia de todos os meus documentos pessoais, a escritura da nossa loja da Rua dos Douradores, um estojo de chaves e um anel de valor ‘inestimável’ segundo a velhota que mo ofereceu.
Após 15 minutos de intenso saudosismo deixo cair a minha linha “Vou a casa de banho, amigo Tavares”.
Tudo na mesma, pequena, toda de azulejo branco, uma das paredes está coberta de pequenos calendários a começar do canto superior esquerdo em 1973. Com calma retraço a conta. Minha data de nascimento, menos o numero de dedos do Tavares, mais o numero de Grammys que o Stevie Wonder ganhou. Ali por trás daquele ano está um azulejo solto. Lá dentro estão as coisas todas dentro de um saco da Harrods.

Saio rapidamente da casa de banho e agradecendo ao Tavares peço para ele mandar cumprimentos ao Vincenzo.
“Epá, nem me digas. O Vincenzo levou uma bolada nas joias de família. Uma coisa aterradora. O estrago foi tanto que ele teve de voltar para Turim para tratar daquilo.”

Paro durante um segundo, “Foi bom ver-te, Tavares. Até breve.”

…Paletós:”Estranho mundo este. Um perde as joias outro volta a encontra-las.”

Huck

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Do Antes Até Agora – Cap. Um

“Joca olhava para o seu relógio de punho, banhado a ouro. O mediador imobiliário estava atrasado. Ao olhar para o relógio lembrava-se sempre do seu companheiro, que lho tinha oferecido. Como se de um ritual se tratasse, Joca voltava a tirar o relógio do pulso e relia, mais uma vez, a gravação feita nas costas desse objecto intemporal. Com uma precisão rara, podiam ler-se palavras de um outro tempo. Os seus olhos começavam a lacrimejar lentamente. A voz de Huck podia ser ouvida como se ainda estivesse ali atrás do balcão ao seu lado: “Para quantificares com precisão os meus atrasos“.

Ao olhar para trás do balcão Joca ainda conseguia ver ecos da figura do seu amigo a sorrir-lhe, quando, a porta fecha-se com um estrondo. O mediador tinha chegado. Uma voz com um volume exagerado fazia-se então ouvir de forma monotónica:

“Ora. Paletós Corte e Costura. Rés do chão, com cave barra armazém, duas casas de banho, total de seiscentos metros quadrados. Certo?”

Menezes, que verificava com ajuda da sua prancheta,  se os caixotes estavam todos em ordem, ao reparar na passividade de Joca, que parecia agora estar a olhar para o mediador com um olhar vazio, dirigia-se então até à porta para tratar da papelada.

“Comprar bom e barato é raro!” – respondia Menezes ao mediador que surpreso pelo provérbio lançado, e perante aquele cenário, não ousou dizer mais nada.

Estava feito. A loja, bastião da subversão alegre dos Paletós, já não era. Antes de sair, Menezes ainda olhou para trás ao ouvir um soluçar que vinha do balcão. E ao ver os olhos de Joca, agora carregados de lágrimas, a olharem para ele, num olhar desesperado e derrotado, também ele percebeu porque é não podiam mais continuar ali.”

in Paletós – Mito ou Realidade? VOL III

Joca

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